História da imigração (final)

Dramas e sonhos

O sonho de pegar a família, entrar num navio e atravessar o oceano, em busca de uma vida melhor vira realidade até se completar a primeira etapa disso. A segunda, que envolve uma vida melhor pode barrar em problemas difíceis de serem explicados. Mas foi em busca desta vida que Miguel Manzato embarcou no vapor Bourgogne, na Itália e se dirigiu ao Brasil. Uma viagem dura, sofrida, onde os passageiros conviviam com doentes, com mortes, vendo corpos serem lançados ao mar é, com certeza, uma parte da história a ser esquecida. Quem assistiu à novela “Os imigrantes”, exibida na Rede Bandeirantes, entre 27 de abril de 1981 e 29 de outubro de 1982, viu cenas parecidas com estas descritas acima. O autor, Benedito Ruy Barbosa, com certeza, sabia o que estava colocando no ar.
Claro que novela tem sua parte de ficção, mas imagina-se que Miguel não vivenciou as mesmas alegrias ao desembarcar em Santos, do que os personagens criados por Ruy Barbosa. Mas imaginemos a família Manzato desembarcando em Santos e subindo a serra até a capital do Estado, em um trem. Num país diferente, numa língua diferente, buscando uma forma de melhorar a vida. A estrada de ferro que subia de Santos e chegava a Jundiaí, passando pela Capital, foi concluída em 1867 e uma das estações ficava exatamente ao lado da Hospedaria dos Imigrantes, inaugurada pelo governo paulista em 1888, mas já recebendo sonhadores desde 1886, quando a obra começou. E Miguel, que chegou em 1887, e que foi o primeiro Manzato a ter seu sobrenome registrado na hospedaria, chegou como lavrador, à espera de algum fazendeiro que o levasse a alguma fazenda de café, pelo interior deste estado.
As regras na hospedaria eram rígidas. Recepção, triagem e encaminhamento formavam o tripé que determinava a permanência dos imigrantes e trabalhadores nacionais na Hospedaria do Imigrante. Os serviços de alimentação e alojamentos eram intercalados com os de controle médico-sanitário, registro e direcionamento ao trabalho. No que se refere aos serviços médicos, merecem destaque: os serviços de higiene, nos quais eram realizados procedimentos básicos como banho, desinfecção e troca de roupas e a inspeção pelo serviço médico, que avaliava com mais atenção o estado de saúde do imigrante. No Escritório Oficial de Informação e Colocação, eram apresentadas as oportunidades de trabalho.

Entre a chegada, a inspeção médica e a realização de contratos de trabalho, o tempo ideal de permanência era de dois dias. A permanência do imigrante era condicionada a oferta de trabalho, existência de problemas médicos-sanitários ou disponibilidade de transporte. De acordo com os registros da hospedaria, o tempo médio de permanência era de uma semana.

Quando o navio aportava em Santos, iniciava-se o processo legal de desembarque do imigrante. Documentação preparada, o imigrante passava por um rigoroso exame médico, exatamente para se verificar se não haviam vírus de doenças contagiosas. Os imigrantes, passageiros de terceira classe, eram agricultores (como Miguel era), operários e artesãos, eram informados, ainda no  navio que tinham direito a transporte gratuito com a família até a hospedaria do imigrante em São Paulo, estadia e alimentação gratuitas, até definição de um emprego, assistência médica permanente, assistência jurídica gratuita por dois anos, até definição de documentação para estadia definitiva no Brasil.


O médico assistia a chegada dos imigrantes, fazia visitas diárias ao alojamento e atendia de pronto aos chamados extraordinários. Era exigido que o profissional possuísse telefone em sua residência, zelasse pelas condições higiênicas do alojamento e que tivesse alguém que o substituísse caso não pudesse comparecer, correndo por sua conta a remuneração do substituto. Apenas como curiosidade, o telefone foi inventado no dia 10 de março de 1876, por Alexander Grahan Bel.

Ao enfermeiro cabia a responsabilidade pela Enfermaria, recorrer à farmácia do Estado, quando necessário, prestar assistência constante aos doentes, requisitar a presença do médico e organizar o Boletim de movimento da Enfermaria.

A parteira, além de exercer esta função. Devia também servir como enfermeira no compartimento das mulheres. Todos os funcionários da enfermaria residiam na hospedaria. A enfermaria atendia a um grande número de pessoas por dia. Para se ter uma idéia, em 1908, deram entrada 307 pacientes na enfermaria, sendo 122 removidos para a Santa Casa de Misericórdia de São Paulo, 70 pacientes ficaram no isolamento, 11 faleceram, 13 ficaram em tratamento e 91 tiveram alta. Os dados da hospedaria não registram caso de surto de doença grave nesta época, mas estes dados sugerem que algo tinha acontecido.

A hospedaria possuía um refeitório, que comportava 80 mesas com dez lugares cada uma. E os horários eram rígidos:

Café e pão, às 7 horas
Almoço – 11 horas
Jantar – 16 horas
Café e pão – 19 horas
Leite para crianças fracas e menores de três anos.


Alem desse, a hospedaria possuía ainda um restaurante pago, funcionando com aparelhos a gás onde os imigrantes que preferissem podiam ser servidos a vontade, pagando um preço módico, de acordo com tabela aprovada pelo Estado. A hospedaria não tem, hoje, os valores cobrados na época.

No corpo central da hospedaria, no primeiro andar, havia seis vastos dormitórios, Junto às paredes, as camas de ferro, eram tipo beliches, deixando espaço livre para a circulação. A parte central era dividida por madeira, formando pequenos quartos reservados às mulheres e crianças. Na cama à frente, dormia o marido.Tais divisões eram desmontáveis e, tanto esses como as camas de ferro, constituíam importantes inovações para a época. Toda roupa de cama era esterilizada por máquinas a vapor.Regras da hospedaria:
Dissemos anteriormente que o imigrante poderia ficar dois dias na hospedaria, mas este tempo era para preparação de documentação e chegada de fazendeiros que buscaram trabalhadores. Na verdade, o imigrante poderia ficar, com direito a alimentação, até seis dias. Perderia o direito se recusasse a aceitar ofertas de emprego propostas por agentes oficiais. O prazo de seis dias poderia ser prorrogado por mais quatro para aqueles que chegavam com prazo pré-determinado, aguardando providências para transferência para trabalho.

Era obrigatório ao imigrante que quisesse receber ajuda que tinha direito por lei, que se recolhesse à hospedaria. O imigrante só poderia deixar o local, após ajuste realizado pelos agentes oficiais. Os  que não se submetesses a essa condição perderiam o direito à passagem para o interior do Estado e ao despacho gratuito de sua bagagem.

A rodovia serviu como transporte para os imigrantes para a hospedaria. Mas o sonho prosseguia, com a ampliação, nos anos seguintes, da ferrovia pelo interior do estado, nas fazendas do café – a maior riqueza de São Paulo no início do século.

Texto: Nelson Manzatto
Foto/Imagem: Fábio Manzatto
Pesquisas: Nelson e Fábio

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5 Respostas to “História da imigração (final)”

  1. Toninho Says:

    Valeu, Nelson e Fábio! Que trabalho de pesquisa! E mais ainda, belo texto, belas imagens. Bonito trabalho o de vocês! Parabéns!

  2. Fabio Says:

    🙂

  3. Nelson Says:

    opa. obrigado mano. Mas o interessante é a gente ficar imaginando como Maddalena passou aqueles dias na hospedaria, com crianças pequenas. Giovanni tinha apenas um ano, quando chegou por aqui. E Miguel tinha que “negociar” trabalho, pois nada consta que tivesse emprego já garantido. Como Jundiaí surgiu na vida dele não sabemos ainda – talvez pela Estrada de Ferro? – ou apareceu algum fazendeiro para lhe dar trabalho por aqui. Isso é um trabalho de pesquisa, com certeza, bem difícil, mas vamos em busca disso.

  4. Ana Maria Says:

    Que belo trabalho Nelson e Fábio, como tudo deve ter sido muito dificil para eles, e como é bom para nós, tomarmos conhecimento de tudo isso, continuem, vale a pena.

  5. andre patacchini Says:

    Cara!
    que blog lindo.
    fiquei emocionado mesmo!
    hoje eu trabalho ao lado da ospedaria e sempre que posso dou uma volta por la… e sempre parece que é a primeira vez que vejo aquela historia toda.
    continue a pesquisa

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