Tudo em um olhar!

Era no olhar, no movimento das pálpebras, no movimento dos olhos para um lado ou para outro ou até mesmo para cima ou para baixo. Esta era a principal forma de Sebastião Manzato se comunicar com seus nove filhos e com a mulher, Christina. Numa conversa entre os irmãos que podia virar uma brincadeira, era o olhar – apenas isso – do pai que mostrava se tinha ou não a aprovação dele o que acontecia. Sua seriedade e poucas palavras mostravam, exatamente num olhar, uma linda frase, uma doce palavra ou até mesmo um sorriso. Mesmo que não houvesse movimento dos lábios. E havia sempre paz e alegria dentro deste silêncio.

Era assim que os filhos viam o pai! Foi assim que Alice que, com seus 77 anos, recorda, ao lado do irmão Domingos, com 70 anos completados no último dia 24, um pouco do que foi Sebastião. Um homem cheio de saúde, de vontade de trabalhar, de ver os filhos progredirem, mas que partiu sem tempo de se despedir daqueles que amava e dos que o amavam. E tudo ocorreu em outubro, mês que começa nesta semana. 8 de outubro é o dia em que Sebastião veio ao mundo – isso em 1899 – e 9 é a data de sua partida, 53 anos e um dia depois seu nascimento.

Alice e Domingos se reuniram com Manzat(t)os de la gran famiglia na tarde do último dia 19, na casa da primeira. O encontro tinha como objetivo falar de Sebastião e Christina, com as pessoas que mais os conheceram: seus filhos. Dos nove que o casal teve, apenas três estão vivos, Alice, Domingos e Antonia (Toninha). A ausência de Toninha foi sentida por todos e compreendida também. Afinal, faz pouco que José Latância faleceu em 21 de dezembro do ano passado. Data recente portanto.

A conversa sobre os pais girou em torno de ações da vida, de maneiras de olhar, de conviver, de sorrir, de sentir…

Nelson entrevistando Alice e Domingos ManzatoNelson entrevistando Alice e Domingos Manzato

Sebastião nasceu em Jundiaí, na verdade em Itupeva que, na época, pertencia a Jundiaí. Os filhos acham que mudou-se para Valinhos por conta de serviço. Alice saiu para trabalhar aos 14 anos, como doméstica. Fez isso durante oito anos e casou-se em 1955 com Aldo de Lucca. Ela afirma que o pai trabalhava em chácaras, sítios, fazendas, na plantação de eucaliptos, algodão ou feijão e a família ajudava na colheita destes últimos. Como o serviço, em Valinhos, não ia bem, acabou indo trabalhar numa pedreira. “Como auxiliar”, completa Domingos.

Ainda em Jundiaí, em Itupeva, onde Sebastião trabalhou numa fazenda da família Bochino que também era dono da usina de açúcar na Vila Arens – (Açúcar Santa Maria), onde Antenor Manzato foi funcionário, ele e a família foram morar no Caxambu, onde Miguel residiu e era residência de Fausto, seu filho, irmão de Santo, portanto tio de Sebastião.

Alice lembra da infância pobre, de muito trabalho, mas de muita união entre todos. “Uma vez por mês a gente sabia que o pai ia para Jundiaí visitar a mãe, o pai. A alegria era grande, pois a gente sabia que ia passear de trem, de Maria Fumaça. Um mês cada um e a gente ficava contando o tempo que faltava para chegar nossa vez de novo. Tanto que na Bodas de Ouro dos meus avós, na foto histórica da família, quem aparece é meu irmão Santo e meu pai. Mais ninguém. Minha mãe sabia que não tinha condição de viajar e ficava com os filhos em casa.”

A morte de Sebastião mudou a vida de todos. Em Valinhos, os filhos começaram a trabalhar na Gessy Lever. É Alice quem lembra do dia em que Sebastião se foi:

“Eu voltava do serviço. Foi um choque. Tinha muita gente em frente à nossa casa”.

“Ficamos sabendo que uma pedra caira sobre ele e o genro, o Francisco”, completa Domingos.

Filhos de Sebastião nos deliciam com lembranças e histórias de vida.Filhos de Sebastião nos deliciam com histórias de vida

Mas é Alice quem dá outros detalhes: “Muita gente foi ao enterro dos dois. Os amigos prestaram uma linda homenagem. Talharam a pedra que caiu sobre eles e fizeram com ela duas cruzes e cada uma está sobre o túmulo deles. Estão sepultados aqui, em Valinhos, um ao lado do outro.”

A dor da partida é muito grande, mas os dois imaginam a reação da irmã Maria, que perdera, de uma só vez, o pai e o marido Francisco. E Maria tinha cinco filhos para criar, Isaura, Antonio, Mauro, Domingos e Dirce.

Os túmulos de Francisco e Sebastião que estão cituados na cidade de Valinhos
Os túmulos de Francisco José Borin e Sebastião Manzato
que estão localizados na cidade de Valinhos

Detá-lhe das cruzes feitas da pedra que causou o acidenteDetalhe das cruzes feitas da pedra que causou o acidente

Em 1955, dois anos após a morte do pai, Alice casou-se com Aldo de Lucca. Inicialmente foram morar em São Paulo, onde Aldo tinha uma fábrica de móveis. Mas oito meses após o casamento, perderam tudo, num incêndio na fábrica. Mudaram então para Jundiaí, onde Aldo foi trabalhar no escritório de contabilidade do Gebran e abriu a Alto Escola Globo, morando na época, na região da Vila Progresso, próximo à sede do Primavera, na avenida São Paulo. Ao vender a auto escola, Aldo abriu uma funerária, na Vila Arens e, dali, mudaram-se para Campo Limpo e, em seguida, retornaram a Valinhos. O casal teve cinco filhos: Aldo Jr, Jorge Luiz, Paulo, Sonia e Maria Cristina.

Domingos casou-se em 1961, no dia 8 de julho, com Ondina Chiminazzo e tiveram cinco filhos também. Eduardo, Eliana, Cristina, Márcio e Adriana. A outra filha de Sebastião viva, Antonia, casou-se com José Latância e o casal teve oito filhos: Carlos Alberto, Osmar, Maria Cristina, Luís Antonio, Maria de Lourdes, Maria Aparecida e Maria da Penha.

Numa pergunta rápida sobre como eram os irmãos Alcindo e Sebastião, Alice conclui logo:

“Seu pai (Alcindo) era mais brincalhão. O meu não, era sério, de pouca conversa, mas eram muito parecidos em outras atitudes”

É ela também quem comenta sobre a mãe:

“Christina era austríaca, tinha o sangue quente, forte. Não guardava as coisas dentro de si. Se alguém dizia alguma coisa que não gostava, já retrucava imediatamente. Era o jeito dela”, sorri Alice. Mas a morte do marido acabou com a saúde dela. “Ficou doente logo no dia que meu pai morreu e nunca mais ficou boa, tanto que morreu nova – 59 anos de idade – depois de dois derrames e um infarto”.

Com tudo isso, Domingos lembra que começou a trabalhar com 12 anos, em um armazém. “Quando meu pai faleceu eu carregava caixas, atendia no balcão num armazém que hoje não existe mais.” Hoje, aposentado, ele lembra do trabalho após aposentar-se da Gessy. “Trabalhei na Jatobá, em Vinhedo depois de aposentado, mas a coisa é difícil. Aposentado é que nem caroço de manga. Usam da gente o mais que podem”.

A indenização da morte de Sebastião serviu para comprar a casa de Cristina, a viúva, e onde hoje mora a Toninha.

A conversa na sala é interrompida por um cheiro de café que vem da cozinha. Risos, conversas cheias de saudade. Muito bolo, doce, refrigerante e trocas de abraços e recordações. Mas isso é assunto para a próxima edição.

(texto: Nelson Manzatto
fotos: Fábio Manzatto)

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3 Respostas to “Tudo em um olhar!”

  1. Cristina De Lucca Says:

    Adorei a entrevista! Já estou com saudades desse dia! Inesquecível! Belo texto, belas fotos! Mais uma vez, parabéns ao Nelson e ao Fábio po nos proporcionarem essa deliciosa viagem ao tempo!

    • Aldinho Says:

      Que maravilhosas recordações !
      Ainda que algumas sejam tristes, reviver momentos tão marcantes em nossas vidas e conhecer a história de nossa família nos leva a agradecer a Deus pela dádiva de sentir emoções.
      Lamentei não poder ter estado com vocês no dia em que minha mãe, Alice, e meu tio Domingos foram entrevistados, mas outros momentos assim virão, com certeza, e espero estar em todos eles.
      Parabéns e obrigado ao Nelson e ao Fábio pela iniciativa e dedicação a esse trabalho (sim, isso dá muito trabalho!) de garimpagem, feito com tanto carinho e paixão.
      Que Deus abençoe vocês e a todos nós.

  2. Nelson Says:

    Sonia pede para se fazer um adendo às informações passadas pela mãe, Alice. Após terem, ela e Aldo se casado, moraram
    por 4 anos em Valinhos e só depois é que foram para São Paulo, onde ficaram 8 meses, até aquele incêndio. Depois a família mudou-se para Jundiaí, onde permaneceu até 1969. Depois foi morar alguns anos em Campo Limpo Paulista, até 1974, quando então a família foi para Valinhos, onde está até agora. Registrado!

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