Lição para pilotar vidas e fogões

O cheiro do bolo assando na cozinha e se espalhando por toda a casa denunciava o dia da semana: sábado! Era uma das certezas em casa: toda semana, Dona Angelina recolhia os ovos no galinheiro, verificava se havia alguma galinha “no ponto” e pedia a seu Alcindo para ir ao açougue, fazer a encomenda para o almoço do domingo. Afinal, dona Angelina e seu Alcindo criaram seis filhos. Era, realmente, comida para um batalhão!

 

Enquanto seu Alcindo descia ao açougue, dona Angelina quebrava os ovos, separando a gema da clara e lá ia, feliz da vida, preparar uma nova receita de bolo. Não havia domingo ou aniversário em casa sem bolo. Todos preparados pelas mãos de dona Angelina. E a gente percebia a satisfação dela ao ver todos consumindo sua obra de arte!

 

Bolo de chocolate, bolo xadrez, bolo de fubá, e bolo, bolo e mais bolo. Bolo para todos os gostos, mas que todos saboreavam! Menos Ana Maria, que só comia bolo de fubá. Mas quando dona Angelina fazia, todos comiam. E mão para fazer doces era com dona Angelina: pudins, sonhos, negrinho de alma branca, pão alemão…

 

Hummm!!! Mas ver dona Angelina preparando a macarronada era de dar água na boca… E isso acontecia também no sábado: massa rolando na mesa, um pau de macarrão para esticar a massa, o corte na medida, a massa secando, o preparo do molho. E a expectativa do prato pronto no dia seguinte. Era assim o cardápio dominical: salada (com verduras do quintal), macarronada, franco assado, ao molho ou a passarinho. Frutas de sobremesa e o bolo no meio da tarde! Mas no inverno, lá ia dona Angelina preparar sua feijoada.

 

Enquanto o bolo assava no forno, ela ia ao quintal, passava pelo galinheiro, verificava qual das aves estava “no ponto” para ser consumida e a levava para o “matadouro”.

 

Minha mãe então limpava a ave e nesse meio tempo o bolo estava pronto. Seu Alcindo já tinha voltado do açougue e era hora de pôr os filhos no banho. Era esperada a correria naquela hora pois – e até hoje não entendi bem o porquê – aos sábados a falta de água se tornava comum. Sábado, dia de tomar banho! Faltando água! Quando não havia água, lá íamos nós tomar banho na bacia. Um banho diferente e difícil… e, no fim, o prazer de levantar a bacia, ainda com água, e derramar tudo em cima da gente.

 

Dona Angelina era assim, sempre prestativa. Pequena, olhos azuis e grandes, escondidos pelos óculos e cabelos brancos. Sempre vi minha mãe de cabelos brancos. Ela fazia questão de dizer que desde os 17 anos, quando faleceu minha avó e, por ser a filha mais velha, passou a criar irmãos menores, por isso os cabelos brancos.

 

Era dentro desta pureza que eu via dona Angelina. Levantando todos os domingos às cinco da manhã, para pegar a missa meia hora depois, passar pela feira, comprando novidades (pois frutas e verduras tínhamos no quintal), chegar em casa, preparar o almoço e, ao meio-dia, colocar tudo na mesa para a família se deliciar. Sempre!

 

Ela não parava nunca! Durante a semana, levantando de madrugada para preparar o almoço de seu Alcindo ou acordar Ademir – que precisava tomar o trem para trabalhar em São Paulo –. E, depois da janta, ela fazia questão de chamar a todos para rezar o terço na sala. Todos reunidos, com o terço na mão, às vezes reclamando a novela perdida na tevê, mas rezando juntos. Todos!

 

Numa noite, um derrame cerebral mudou a rotina. Mas ela não desistiu: voltou a aprender a falar, pois ficara com metade do corpo paralisado, língua travada. A gente via nela a vontade de viver! Tanto que ela voltou a falar, parecia uma estrangeira, mas não desistiu: com uma bengala, caminhava pela casa, depois de muita fisioterapia. Cozinhar, não podia mais, mas não desistiu. Ficava dando as orientações para seu Alcindo que assumiu o comando do fogão!

 

No final, enxugava a louça. Por ter movimento em apenas uma das mãos, era com esta que pegava a louça, colocava sobre a mesa, enxugava de um lado, virava do outro, para completar o serviço e colocar no armário.

 

Depois de ver todos os filhos formados (um deles foi ordenado padre), ela se sentiu mal numa manhã de março, mas continuou mostrando sempre sua preocupação com os filhos: “não estou com medo de nada, apenas diz para o Albertinho não deixar de comer.” Foi a última vez que ela saiu pela porta de casa, na avenida São Paulo, deixando em todos uma marca de saudade e a certeza de que vale a pena viver. Principalmente para quem conheceu o jeito de ser de dona Angelina…

 

(homenagem aos 89 anos que dona Angelina completaria neste dia 8, caso estivesse viva – texto de Nelson Manzatto)

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3 Respostas to “Lição para pilotar vidas e fogões”

  1. Toninho Says:

    Bela história, Nelson! Valeu, mano!
    Bela homenagem no dia do aniversário dela!

  2. Nelson Says:

    obrigado Toninho. Esta é uma certeza de que tudo vale a pena!

  3. Ana Maria Says:

    Que linda homenagem, neste dia do aniversário dela, a saudade só aumenta…. Ontem revimos a formatura do Bertinho, agora em DVD, e lá estava ela com um grande sorriso no rosto.
    Concordo Nelson, tudo vale a pena mesmo.

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